Frater Germanus II

25/09/2017 Frei Paulo Antônio Alves, NDS
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A convocação do santo Padre para a Igreja meditar acerca da Vocação e da Missão da Vida Consagrada fez com que muitos religiosos e religiosas, falando da realidade do Brasil, se perguntassem sobre sua identidade e sua atuação no seio da Igreja e da sociedade a partir dos elementos que as identificam: o Carisma, os Conselhos Evangélicos e a Vida Fraterna. De modo particular, a vida religiosa consagrada masculina se colocou alguns questionamentos como a palavra que identifica os religiosos: a palavra irmão. Esse tema foi abordado, de modo rápido, no artigo: frater germanus I. Que aliás, você, meu irmão ou irmã de caminhada, nos passos do Mestre -, o Rabbi da Galiléia, Jesus de Nazaré, que colocou em nossas mãos o Reino dos Céus, para ser construído aqui na terra -, que o leu é convidado e acrescentar sua contribuição pró ou contra! E agora este artigo vai abordar a questão do espaço onde os religiosos são formados, preparados para a Vida Fraterna, o Carisma e os Votos.

Há uma tendência quase que geral em denominar de seminário o lugar onde os futuros religiosos são formados. Mesmo diante da evidência ululante da natureza da Vida Religiosa Consagrada de formar consagrados que não são necessariamente ministros ordenados e nem mesmo é uma condição sine qua non para que a Vida Religiosa Consagrada Masculina exista. O termo justo e adequado para os lugares onde os jovens rapazes são formados são as casas de formação e cada uma delas acolhe uma etapa: aspirantado, postulantado, noviciado e casa religiosa com junioristas (irmãos professos ou freis de primeiros votos) e irmãos/freis de votos perpétuos não ordenados presbíteros/sacerdotes/padres e com ministros ordenados também. Todos têm o elemento “sangue dos votos” que os identifica. Isso não acontece com nossos irmãos diocesanos que são padres, sacerdotes, presbíteros, mas não são freis. Nossos irmãos diocesanos foram formados em um seminário cuja definição é lugar onde são formados padres. O Decreto Optatam Totius 5 [1295] reza assim: “Com diligente cuidado de predileção, o Bispo anime os que trabalham no Seminário e apresente-se aos estudantes como autêntico Pai em Cristo. E todos os sacerdotes considerem o Seminário como o coração da Diocese, oferecendo-lhe espontaneamente seu auxílio pessoal.” Como podemos obsevar, o seminário é como que o coração da Diocese e o seu primeiro responsável é o bispo, e, de igual modo, as casas de formação são como que o coração das famílias religiosas consagradas e seu primeiro responsável é o superior geral, eleito pelos seus irmãos para exercer também essa missão pelo tempo determinado pelas Constituições. Nas casas de formação, nem todos têm a vocação para serem padres, mas todos estão buscando os conselhos evangélicos; já, em um seminário, todos entraram porque querem ser padres, sacerdotes, presbíteros. Parece que a tendência, quase que geral, em chamar as casas de formação de seminário está, de um lado, na não valorização da essência da vida religiosa consagrada (Carisma, Vida Fraterna, Conselhos Evangélicos), que é vista como “uma espécie de diocese dentro de uma diocese para formar não religiosos, irmãos, freis; mas para formar padres, presbíteros, sacerdotes, ministros ordenados. (Parece que , de um lado, há uma tradição em colocar tudo num mesmo lugar comum e, de outro lado uma elaboração da pós Concílio Vaticano II, que criou a Tradição acerca da Vida Consagrada a partir de uma tentativa escrita das etapas da vida consagrada, que na prática só algumas famílias religiosas levam a sério). O ritual de bênçãos deixa, bem claro, a definição de seminário: “lugar para formar os futuros padres”. Dê uma olhada! Na há nem mesmo, uma bênção para as casas de formação, para os jovens que querem ser religiosos e para as jovens que querem ser religiosas (freis e freiras); pois no caso dos jovens, as casas de formação são vistas como seminário que é diocesano e não seminário diocesano e seminário religioso. Esses dois conceitos foram criados e refletem bem como a vida religiosa é vista. Nem fala da casa de formação das jovens. Só se abençoa o convento, mas o convento já é o lugar das religiosas professas. É dessa relação com o universo feminino, das religiosas que acreditamos estar presente o outro lado da questão de se chamar as casas de formação de seminário; pois as etapas da vida religiosa consagrada é “só para as freiras”, nem se fala de formandas. Vocês já viram alguma vez no folheto da missa no tempo vocacional orações para os formandos e formandas da vida religiosa do Brasil e do mundo e para os seminaristas das várias dioceses do Brasil e do mundo, e em especial da nossa Diocese X? Na maioria das preces, vemos: vamos rezar pelos padres, seminaristas e pelas religiosas. Muitas vezes, nem o bispo é lembrado! Ele aparece é incluído na palavra padre. Já ouvimos muitas vezes dizer que as etapas: aspirantado, postulantado, noviciado é para as irmãs; “pois o povo não entende!” “Quando fala seminarista o povo entende!” Assim um “noviço” é um “seminarista”. Já dizia o nosso velho amigo Parmênides: o ser é o não ser não! Seminarista é aquele jovem que quer ser padre e não precisa dos votos de consagração para isso e será seminarista até se tornar diácono e depois padre. Na vida religiosa não é assim! Primeiro o jovem, no caso da vida religiosa masculina, após ser aprovado pelo animador vocacional e sua equipe, é encaminhado para o aspirantado, que é a primeira etapa, que em geral é de um ano, outros preferem falar de mais tempo, mas um ano de aspirando para apresentar ao jovem a família religiosa que o está acolhendo, e depois desse ano, ele passa a ser postulante, ou seja, o jovem que tendo sido conscientizado da vocação e missão da família religiosa da qual ele quer fazer parte, deve esperar o momento do noviciado que é “o mergulho” na vida religiosa consagrada. Para esse entrada, na vida religiosa, o jovem deve esperar sendo preparado para o noviciado, 1◦ postulante, isto é, primeiro ano como postulante, se não houver noviciado, 2◦ postulante, isto é, segundo ano de espera para o noviciado, e assim por diante, e para a vida religiosa não é a filosofia ou a teologia que definem as etapas, o tempo da vida religiosa não é o tempo da diocese que forma padres que entram no propedêutico ou outro nome, depois filosofia e teologia como seminarista até ser ordenado diácono, quando é ordenado diácono deixe de ser seminarista. Na vida consagrada, quando o jovem entra para o noviciado deixa de ser postulante e se torna noviço e depois dessa etapa torna-se irmão ou frei que são sinônimos. Graças aos nossos irmãos mais velhos de vida religiosa consagrada, que prezam pela identidade da vida religiosa consagrada e com coragem e perseverança veiculam o termo frei ou frade e não são confundidos com outros grupos. Esses nossos irmãos fizeram e fazem a escolha em veicular a missão e vocação da vida religiosa consagrada, por serem religiosos, fazem questão de serem chamados freis ou frades, simples e forte assim! Termo que hodiernamente falando, mesmo sendo o mais antigo é o que mais responde a uma questão de identidade para a sociedade pós-moderna, quando falamos de um homem católico que se consagrou a Deus a serviço do Povo.

Que possamos na unidade indissolúvel da Igreja, guardar e fazer memória da sua diversidade que se delimita, se circunscreve por meio da identidade da vocação e missão das famílias consagradas e da vida diocesana, que se enriquecem mutuamente sem que para isso uma se dilua na outra. Mas juntas, uma ajudando a outra, trabalham para a honra e a glória de Deus e para que haja vida, justiça e paz, em abundância, para todos.

Qual sua resposta? Cremos que Seminário e Casa de formação são dois espaços que têm identidades próprias para uma finalidade comum: a construção do Reino de Deus no seio da Igreja em diálogo permanente com o mundo. Seminário forma padres, Casa de formação forma religiosos, entre os quais alguns ou, muitas vezes, muitos são ordenados padres. Jamais existirá uma familiar religiosa sequer que seja unicamente de religiosos padres; pois para ser padre, em uma família religiosa consagrada necessariamente tem que existir o noviço e posteriormente o irmão, religioso ou frei. Só depois existirá, numa linha cronológica, um ministro ordenado. Não é assim no modus essendi das Dioceses: todo padre foi um dia seminarista e diácono; mas não é frei/irmão/religioso. Todo religioso padre ou não é frei, é irmão! Eis uma princípio de identidade que nos ajuda a ver a beleza de cada realidade quer diocesana, quer religiosa consagrada e pode ajudar os nossos jovens a fazerem o seu discernimento vocacional. Não se trata de privilégios, mas de missão e vocação, estamos falando de identidade, de quid sit.

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