Arcanjo Miguel (1ªParte)

19/02/2018 Fr. Paulo Antonio Alves, NDS
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Arcanjo Miguel

(Texto, em grande parte, tirado do Frei Frederico Manns, de sua obra: La prière de Israël à l´heure de Jésus, pp. 60-62).

O livro de Daniel chama são Miguel de “o príncipe de Israel” (10.13,21) e que a Tradição considera como sendo Sumo Sacerdote no Templo Celeste.
Sabemos que a Seita de Qunran atribuía um grande valor ao culto dos anjos. A comunidade se considerava como um santuário (CD 3,19-20). “Àqueles e àquelas que Deus escolheu foi-lhes dado uma participação na herança dos santos e, com ´os filhos e filhas dos céus´, ele reuniu sua assembleia em conselho de comunidade e a assembleia do santo edifício será uma plantação eterna durando todo o tempo que está para chegar” (1QS 11,7-9). Essa comunhão com os anjos, os filhos e filhas dos céus, acarretavam em consequências na ordem da santidade, do conhecimento e também na moral sexual. Os anjos que participam dos segredos divinos podiam revelá-los aos homens e às mulheres. Flávio Josefo nos informa que a tradição do nome dos anjos fazia parte da iniciação dos novos membros da Seita. São Miguel ocupava um lugar especial entre os anjos. Muitos textos da Seita falam do Príncipe das luzes, sem contudo identifica-lo (1QS 3, 17-25). Uma reunião e comparação de alguns textos da regra da guerra permite afirmar que o Príncipe das luzes não é outro senão são Miguel (1QM 3, 10-14; 17, 4-8). São Miguel é, de igual modo, o chefe do exército célico de Deus o qual se opõe ao príncipe da impiedade (1QM 17, 6-8).
1ª Henoque 90,21-22 apresenta são Miguel como o primeiro ser criado entre os 7 Arcanjos. Os nomes dos outros Arcanjos são citados em 1ª Henoque 20,1-8: Uriel, Rafael, Raguel, Sarakiel, Gabriel e Remiel. Justamente pelo fato de ter sido criado primeiro, são Michel ocupa um lugar central no coro dos Arcanjos. Segundo essa tradição, são Miguel está do lado direito de Deus e Deus confia a ele as missões mais importantes. Na tradição cristã, são Miguel está à direta do Filho, que ouve a vontade do Pai, e via o Espírito, comunica a são Miguel.
Quando Deus criou Adão e Eva a sua imagem, são Miguel foi encarregado por Deus para apresentar a Adão e Eva aos anjos para que eles adorassem a imagem do Deus no ser humano. Alguns anjos se recusaram acatar a ordem de Deus, já que o ser humano: Adão e Eva tinham sido criados depois deles. Por causa dessa desobediência, Deus encarregou são Miguel de expulsar dos céus tais anjos desobedientes. O chefe deles, chamado Samael, se agarrou às asas de são Miguel tentando arrastá-lo em sua queda (Assunção de Moisés 10). Mas Deus veio em socorre de são Miguel, salvando-o das garras de Samael. E é justamente nessa imagem da luta de são Miguel com o chefe dos anjos desobedientes e caídos, Samael, que está enraizada a imagem popular da luta de são Miguel com o dragão. Samael é às vezes simbolizado por uma grande serpente.
Já no livro de Daniel, são Miguel é apresentado como o anjo guardião do Povo de Israel. Os 70 povos da terra têm cada um deles um anjo guardião. O Povo de Israel, mesmo sendo herança particular de Deus, é protegido por são Miguel. Essa proteção particular tem sua origem na época dos Patriarcas. São Miguel salvou o pai Abraão da fornalha de fogo onde Nimrod o havia lançado (Gen R 44,16). São Miguel instruiu Moisés nos arcanos da Torá (Dt R 11,6). Ele salvou o sábio Hananiá a fornalha (Gen R 44,13) e salvou o Povo de Israel do ímpio Amã (Ester R 3,8). São Miguel é também aquele que intercede pelo Povo de Israel diante do Trono de Deus.
A intercessão de são Miguel se reveste de uma cariz especial, já que são Miguel é o Sumo Sacerdote do Templo celestial onde ele oficia e conduz a liturgia celeste. Ele faz a expiação por Israel sobre o altar (Zev 62a). O Apocalipse grego de Baruque 11 o apresenta como aquele que recolhe em taças de ouro de ofir as boas obras, ou obras de misericórdias das mulheres e dos homens e as apresenta ao Altíssimo, 3 vezes Santo. Já, segundo o Targum de Gen 32,25, foi o próprio são Miguel o responsável pelo conceito do dízimo, que se tornou mitsvá ou mandamento, após aprovação divina, por se ocupar e preocupar, como Sumo Sacerdote, com as questões materiais dos sacerdotes do templo que deviam se consagrar aos cuidados do Templo de Sion ou Jerusalém, cuja única herança era o próprio Criador e Senhor das 12 Tribos de Israel. As funções celestes de são Miguel como Sumo Sacerdote faziam-no constante e concomitantemente fazer memória das necessidades do Templo Terrestre.
São Miguel é ativo nos céus e igualmente na terra, na história das mulheres e dos homens, pois foi ele que justamente anunciou ao pai e abençoador Abraão que Lot ficara prisioneiro (Pirqei de R. Eliezer 26). Foi ele que trouxe o evangelho ou boa nova a Sara de que seria mãe de um filho que seria filho do riso (Targum Gen 18,1). Foi ele que lutou com Jacó e o abençoou (Targum Gen 32,25). Oséias 12,5, ao reler a cena do sonho e da luta de Jacó, de Gen 32, pronuncia-se, falando da tefilá ou oração de Jacó. Enfim, foi são Miguel que defendeu Tamar, fazendo-a encontrar o anel de Judá (Targum Gn 38,25). A Tradição de Israel, portanto, apresenta são Miguel como um advogado, ou defensor ou como o Paráclito de Israel.
Um papel especial é reservado ainda a são Miguel no momento da morte dos justos. O Testamento de Abraão, em sua versão grega longa 1 diz que é são Miguel que apresenta as almas diante do tribunal de Deus e as defende. São Miguel conduz os justos para entrar na Sion Celeste, na Jerusalém Celeste. A liturgia cristã faz memória dessa Tradição quando, na missa dos fieis defuntos, São Miguel é chamado de aquele que apresenta as almas à Luz Sagrada ou Santa (ofertório da missa dos fiéis defuntos).

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